Um dia, o Saxofone e a Clarineta se encontraram na porta da Orquestra Sinfônica, e depois dos cumprimentos habituais e conversa amena, o Saxofone quis mostrar a sua superioridade.
– Como é que você se sente sendo preferido por tão poucos?
– Como? O que é que você quer dizer? Perguntou a Clarineta.
– Ué, qualquer criança quando vai entrar para a bandinha da Escola ou da Igreja, sempre pede para começar no Saxofone. Já o Clarinete…
A Clarineta riu.
– Amigo Saxofone, ou Sax, como você gosta de ser chamado. – Deu um largo sorriso – Eu sou para os predestinados, para aqueles que, mesmo sem saber, estão para se encontrar com o instrumento que será a paixão de sua vida. O Sax, instrumento óbvio, é mais barulhento, espalhafatoso, e por isto o objeto das crianças e de todos os que não tem o ouvido acostumado às sutilezas da música.
E continuou.
– E para que não deixe de constar, eu estou em todos os ambientes, como Clarineta nos mais eruditos, ou Clarinete nas rodas de Choro, no Carimbó e até no Jazz, onde acho minha vaguinha, apesar de sua presença constante. Contra o seu cromado, ou espalhafatoso dourado, eu sou o contraponto da discrição, em meus tons de madeira, ou a nobre negritude do ébano.
O Sax ficou meio derrubado com a estória, mas não se deu por vencido.
– Eu sou o Saxofone, filho de Adolphe Sax, que me inventou na Bélgica em 1840, há quase 200 anos. E você, quem é? – E fez pose, levantando a cabeça.
A Clarineta, balançou a cabeça, com um leve sorriso no rosto.
– Meus pais? Meus pais se perdem nos tempos passados, há milhares de anos atrás, às margens do rio Nilo, quando os antigos egípcios começaram a cortar as canas de suas margens, esculpindo a palheta em seu próprio corpo, e criando o primeiro instrumento de palheta da História.
Depois disto, surgi em vários lugares, inclusive na Grécia Clássica, onde aparecia como um instrumento de sopro, com uma ou duas palhetas, sendo utilizado principalmente nas festividades religiosas.
Na Idade Média, adotei uma forma mais próxima da atual, sendo conhecido como Chalumeau, e imensamente apreciado nas Cortes Européias.
Já no século XIX evolui para a Clarineta Clássica, com mais e mais chaves, até chegar à forma atual quando sou construida com dezessete, dezoito e até mais chaves.
Abriu um sorriso largo para o Saxofone.
– E você, o que é que acha desta estória?
Emburrado, o Saxofone nem se despediu, se enfiando Sinfônica adentro em busca do local dos ensaios.



