sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O Saxofone e a Clarineta



Um dia, o Saxofone e a Clarineta se encontraram na porta da Orquestra Sinfônica, e depois dos cumprimentos habituais e conversa amena, o Saxofone quis mostrar a sua superioridade.

– Como é que você se sente sendo preferido por tão poucos?

– Como? O que é que você quer dizer? Perguntou a Clarineta.

– Ué, qualquer criança quando vai entrar para a bandinha da Escola ou da Igreja, sempre pede para começar no Saxofone. Já o Clarinete…

A Clarineta riu.

– Amigo Saxofone, ou Sax, como você gosta de ser chamado. – Deu um largo sorriso – Eu sou para os predestinados, para aqueles que, mesmo sem saber, estão para se encontrar com o instrumento que será a paixão de sua vida. O Sax, instrumento óbvio, é mais barulhento, espalhafatoso, e por isto o objeto das crianças e de todos os que não tem o ouvido acostumado às sutilezas da música.

E continuou.

– E para que não deixe de constar, eu estou em todos os ambientes, como Clarineta nos mais eruditos, ou Clarinete nas rodas de Choro, no Carimbó e até no Jazz, onde acho minha vaguinha, apesar de sua presença constante. Contra o seu cromado, ou espalhafatoso dourado, eu sou o contraponto da discrição, em meus tons de madeira, ou a nobre negritude do ébano.

O Sax ficou meio derrubado com a estória, mas não se deu por vencido.

– Eu sou o Saxofone, filho de Adolphe Sax, que me inventou na Bélgica em 1840, há quase 200 anos. E você, quem é? – E fez pose, levantando a cabeça.

A Clarineta, balançou a cabeça, com um leve sorriso no rosto.

– Meus pais? Meus pais se perdem nos tempos passados, há milhares de anos atrás, às margens do rio Nilo, quando os antigos egípcios começaram a cortar as canas de suas margens, esculpindo a palheta em seu próprio corpo, e criando o primeiro instrumento de palheta da História. 

Depois disto, surgi em vários lugares, inclusive na Grécia Clássica, onde aparecia como um instrumento de sopro, com uma ou duas palhetas, sendo utilizado principalmente nas festividades religiosas.

Na Idade Média, adotei uma forma mais próxima da atual, sendo conhecido como Chalumeau, e imensamente apreciado nas Cortes Européias.

Já no século XIX evolui para a Clarineta Clássica, com mais e mais chaves, até chegar à forma atual quando sou construida com dezessete, dezoito e até mais chaves.

Abriu um sorriso largo para o Saxofone.

– E você, o que é que acha desta estória?

Emburrado, o Saxofone nem se despediu, se enfiando Sinfônica adentro em busca do local dos ensaios.


sábado, 16 de janeiro de 2021

ABCL - A questão da contribuição

Pode não parecer, mas muitos clarinetistas não tem condições  de enfrentar a anualidade da ABCL, seja a de estudante, 75,00 reais, ou a de Professores e músicos profissionais, que no momento é de 150,00 reais.

Isto tem sido, claramente, uma barreira para a entrada de novos membros na associação, por mais que se diga que o valor não é tão grande. 

Todavia, existe uma forma conveniente e eficaz para contornar esta questão.

Sites como o Apoia.se, permitem que Associações, devidamente registradas, possam receber, mensalmente, valores de interessados cadastrados através de seus cartões de crédito.

Desta forma, a anualidade de um estudante, que era 75,00 reais, de uma só vez, passa a ser cobrado mensalmente, dividido em mensalidades de 7,00 reais. E se você observar, doze de 7,00 reais, tornam-se em 84,00 reais.. 

E o que é melhor, evitando a atrapalhação de um sistema de cobrança e acompanhamento, já que o cartão de crédito, programado para tal, é que fará um desconto mensal deste pequeno montante.

Que estudante, ou seu responsável, sentiria o dispêndio mensal de sete reais? Isto é pouco mais que o preço de uma passagem de ônibus urbano.

Você consegue enxergar a revolução que isto seria?

Para a ABCL, em vez da entrada eventual e chorada das anualidades, seria uma entrada mensal, garantida, de muito mais pagantes, eu tenho certeza. Um orçamento mais estável e muito mais fácil de controlar.

Vamos nesta?


domingo, 10 de janeiro de 2021

Meu gato preto

 


Um poema (letra, marchinha?) de Oswaldo Pullen



O meu gato virou pandeiro

Quem mandou ir pandeirar


A gata do vizinho

Era gata interessante


Sua cara muito feia

Mas os quartos eram grandes


O meu gato virou pandeiro

Quem mandou ir pandeirar


O meu gato era esperto

Resolveu ir assuntar


Mexeu com a gata alheia

Propriedade particular


O meu gato virou pandeiro

Quem mandou ir pandeirar


O dono era bravo

Não quis nem conversar


Pegou meu gato preto

E mandou desembrulhar


Meu gato virou pandeiro

Quem mandou ir pandeirar


Meu gato era preto

Bem malandro vou contar


Um esperto mais pra bobo

Que me deixou a lamentar


Meu gato virou pandeiro

Quem mandou ir pandeirar


O dono era brabo

Não quis nem conversar


Pegou meu gato esperto

E mandou me preparar


Um pandeiro em couro cru

Que em mãos veio me entregar


Ai, meu Padim que me protege

O que fazer nesta aflição?


Pois pegou meu gato preto

E em mãos veio entregar


O meu gato virou pandeiro,

Quem mandou ir pandeirar?


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Clarinete ou Clarineta? Cuidado, perigo de vida!

 Se você preza o seu futuro com este simpático instrumento, muito cuidado com o que fala.

Clarinete ou Clarineta? Sua vida depende da resposta...


Menino ainda, aprendi que o nome do instrumento musical que se tornaria tão importante para mim era Clarinete. Mal sabia que o meu futuro, e quiça minha vida iriam depender do extremo cuidado no uso deste e final ou de um a da peste.

Faz diferença? Faz, pode acreditar.

Pois no início de tudo era mesmo clarinete, e estava tudo bem. Isto durou a vida toda, até a minha provecta idade, que já passou dos vinte tem meio século.

Mas, no início deste pandêmico ano de 2020, já como um aluno novato, escutei o meu professor falar em alto e bom som:

— Com que então você quer aprender Clarineta?

(Devo estar ouvindo errado...)

— Como, Profi? O senhor quiz dizer Clarinete, não?

Ele me olhou (pelo Google Meet, que é a forma moderna de se olhar hoje em dia), e se manteve impassível. Como também fiquei em silencio, ele resolveu, após uma demora um pouco, digamos, longa, declarar.

— Eu disse, Cla-ri-ne-ta — ele falou com Azão no final e tudo.

Meu saudoso Pai me ensinou que Cabrito que é bom não berra. E daí, resolvi ficar na minha, apesar de meio empombado com o Azão.

— Desculpe o mal jeito, Profi. Não vou mais errar o nome do Clarinet.... errrh, da Clarineta, ok?

Ele pareceu um pouco mais calmo, e daí comecei o comecinho do meu caminho de Clarinetista (ainda bem que todos concordam que o nome é Clarinetista mesmo... ou não?)

Mas, um dia, já muito lampeiro com as minhas habilidades, fui a uma Roda de Choro, e perguntei se podia participar. Era um boteco, e o clima estava pra lá de animado.

— Posso tocar a minha clarineta?

Foi um silêncio total. Na maior inocência, perguntei.

— O que foi que eu fiz?

Um rapaz um pouco mais enfezado que o resto, puxou-me pelo braço e me levou para um canto do boteco.

— Ai, ai, larga meu braço, seu moço! O que foi que eu fiz?

O cara, um pouco fortinho demais para o meu tope, foi logo metralhando.

— Começa que em roda de choro ninguém chega e vai querendo tocar, otário.
Tem que se achegar, entende?

E continuou.

— Tem que ficar peruando, peruando, até que um dia você chega de instrumento na mão e espera que alguém queira ir ao banheiro, ou a patroa está chamando, e ele tem que ir senão é sopapo, e daí você torce para que alguém lhe dê a oportunidade para a canja que você tanto quer, entendeu?

Eu ia responder, mas o Fulano não deu tempo.

— E tem mais! Clarineta é coisa de grã-fino, e aqui todo mundo é gente comum, que toca de ouvido, e não está nem aí para estes trecos de Conservatório, sacou? Aqui é Clarinete, com um "Ezão" no final.
Assim, senta naquele banquinho lá, fica vindo nas próximas Rodas e vai se achegando, até que alguém lhe dê a oportunidade, falou?

Pois é. Se então o nobre, ou a nobre companheira que me lê, não quiser passar pelo mesmo vexame, veja lá que existe uma distância muito maior entre o e e o a, do que a vã inocência de um neófito possa imaginar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Exercício 53 *

Conhece o "Suplício 53", também conhecido como o "Vale dos Aflitos"? 
Pois é, vou lhe dar a receita: 
1. Pegue um Cara que já não tem as mesmas sinapses de 50 anos atrás. 
2. Que levou a sério uma semibreve não tem 90 dias. 
3. Que antes destes 90 dias não tinha encostado numa clarineta... 
Daí você abre um método na frente dele, aponta para um exercício, o tal 53, que tem somente 16 compassos e quase tantos intervalos quanto semínimas e colcheias (que são as figuras mais complexas do exercício). Difícil? Nem tanto, mesmo para o ancião meio assustado. Mas aí... A receita do Diabo:
O metrônomo! Tic-Tac-Tic-Tac! Preocupar-se com quê? A nota que vai tocar? O valor? O intervalo, a embocadura, a digitação? 
E perante o espantado professor, que lhe olha através dos olhos eletrônicos do Google Meet, o aluno, já quatro compassos atrasado, começa a soluçar incontrolavelmente.
 (...) 
No dia seguinte, as sete e trinta da matina, o indestrutível clarinetista arma o seu instrumento, e volta para o Exercício 53, sabendo que ao final do expediente já não vai comer nenhum Tic ou sequer um Tac daquele torquês do Tinhoso. 
Oswaldo Pullen - Clarinetista por vir nem que seja por uma graça não merecida...

* Escrevi esta postagem em 31 de agosto de 2020, com menos de três meses a frente de uma clarineta, tendo que lidar com boca mole, falta de ar, dedos duros, etc, etc... Chame de Paixão pela Clarineta, ou mero Masoquismo, mas ainda estudo diariamente (ou quase), e me surpreendo com os eventuais e bons resultados.
Mas sei que chego lá!

O Saxofone e a Clarineta

Um dia, o Saxofone e a Clarineta se encontraram na porta da Orquestra Sinfônica, e depois dos cumprimentos habituais e conversa amena, o Sax...