Se você preza o seu futuro com este simpático instrumento, muito cuidado com o que fala.
Clarinete ou Clarineta? Sua vida depende da resposta...
Menino ainda, aprendi que o nome do instrumento musical que se tornaria tão importante para mim era Clarinete. Mal sabia que o meu futuro, e quiça minha vida iriam depender do extremo cuidado no uso deste e final ou de um a da peste.
Faz diferença? Faz, pode acreditar.
Pois no início de tudo era mesmo clarinete, e estava tudo bem. Isto durou a vida toda, até a minha provecta idade, que já passou dos vinte tem meio século.
Mas, no início deste pandêmico ano de 2020, já como um aluno novato, escutei o meu professor falar em alto e bom som:
— Com que então você quer aprender Clarineta?
(Devo estar ouvindo errado...)
— Como, Profi? O senhor quiz dizer Clarinete, não?
Ele me olhou (pelo Google Meet, que é a forma moderna de se olhar hoje em dia), e se manteve impassível. Como também fiquei em silencio, ele resolveu, após uma demora um pouco, digamos, longa, declarar.
— Eu disse, Cla-ri-ne-ta — ele falou com Azão no final e tudo.
Meu saudoso Pai me ensinou que Cabrito que é bom não berra. E daí, resolvi ficar na minha, apesar de meio empombado com o Azão.
— Desculpe o mal jeito, Profi. Não vou mais errar o nome do Clarinet.... errrh, da Clarineta, ok?
Ele pareceu um pouco mais calmo, e daí comecei o comecinho do meu caminho de Clarinetista (ainda bem que todos concordam que o nome é Clarinetista mesmo... ou não?)
Mas, um dia, já muito lampeiro com as minhas habilidades, fui a uma Roda de Choro, e perguntei se podia participar. Era um boteco, e o clima estava pra lá de animado.
— Posso tocar a minha clarineta?
Foi um silêncio total. Na maior inocência, perguntei.
— O que foi que eu fiz?
Um rapaz um pouco mais enfezado que o resto, puxou-me pelo braço e me levou para um canto do boteco.
— Ai, ai, larga meu braço, seu moço! O que foi que eu fiz?
O cara, um pouco fortinho demais para o meu tope, foi logo metralhando.
— Começa que em roda de choro ninguém chega e vai querendo tocar, otário.
Tem que se achegar, entende?
E continuou.
— Tem que ficar peruando, peruando, até que um dia você chega de instrumento na mão e espera que alguém queira ir ao banheiro, ou a patroa está chamando, e ele tem que ir senão é sopapo, e daí você torce para que alguém lhe dê a oportunidade para a canja que você tanto quer, entendeu?
Eu ia responder, mas o Fulano não deu tempo.
— E tem mais! Clarineta é coisa de grã-fino, e aqui todo mundo é gente comum, que toca de ouvido, e não está nem aí para estes trecos de Conservatório, sacou? Aqui é Clarinete, com um "Ezão" no final.
Assim, senta naquele banquinho lá, fica vindo nas próximas Rodas e vai se achegando, até que alguém lhe dê a oportunidade, falou?
Pois é. Se então o nobre, ou a nobre companheira que me lê, não quiser passar pelo mesmo vexame, veja lá que existe uma distância muito maior entre o e e o a, do que a vã inocência de um neófito possa imaginar.